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quinta-feira, 19 de junho de 2008

Arre

Hoje acho que não acabo o dia sem passar pelo posto da GNR. Estou com uma vontade tão grande de bater em cada pessoa que passa em frente à porta da loja.
Ainda há dois minutos, ouço a conversa de alguns transeuntes que, embora parando do lado de fora, estão mesmo à minha frente. Eis o que conversaram, depois, em tom baixo para eu não ouvir:

«Gajo -
(sussurrando) Olha esta loja ...(imperceptível)gnngnn mmv sdsdjv mmnsds sd... deve ter aquele chá!
Gaja - (sussurrando) Aqui? Não tem nada.
Gajo - (sussurrando) Não tem? Não tem? (Falando normalmente) Então procura "háver" se não tem!».

E foram-se embora. Gngngn mnfdd ...da-se.

Voltaram...

Desta feita, resolveram entrar.

-«Tem chá de varizela?
- Varizela? Não conheço. Deixe-me só consultar aqui neste livro se existe. Não tem outro nome?
- Não. Não sei.
- Não encontro nada. Para que efeito é?
- É para o castrol.
- Ah... Pois, para o colesterol tem este e este ou este. Agora com esse nome não vejo nenhum chá.
- Prontos, então. Muito obrigado.»

Só para esclarecer, o livro referido é o compêndio mais exaustivo de chás e plantas medicinais feito até hoje em Portugal, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian e elaborado por um professor catedrático da faculdade de farmácia da universidade de Coimbra, uma médica e docente da faculdade de medicina da universidade de Lisboa e uma licenciada com funções de assistente na faculdade de farmácia da universidade de Coimbra (consultar informação). E, depois, numa procura pelo Google, só encontrei varicela. Nem vestígios que indiquem a existência de alguma planta com esse nome.

A vontade de bater ainda não passou.

Quem não sabe é como quem não vê. Intrigado com a história da varizela, indaguei junto da minha mãe na tentativa de descobrir um nome mais comum para a dita planta. Também sem saber o que raio é varizela, pergunta-me para que queria ele essa planta. Respondendo, em jeito de brincadeira, da mesma forma que ouvi, disse:
-«Para o castrol.
- Castrol?
- Sim, o colesterol.
[Passados 5 segundos, acende-se uma luz por cima da cabeça da minha mãe e ouve-se um coro em pano de fundo.]
- Ó homem, o que ele queria era beringela. Deixa-se uma beringela cortada em fatias num copo de água, de um dia para o outro e, na manhã seguinte, bebe-se esse sumo em jejum. Ajuda a baixar o colesterol.»

Está resolvido o mistério. A varizela, ou melhor, a beringela serve para diminuir o castrol, quero dizer, o colesterol. No fim disto tudo, só me vem à cabeça esta anedota:

Uma mulher vai ao médico:
- Ó sr. doutor, dói-me tanto o peito.
- O peito? Deixe-me ver... Inspire, expire. De novo. Hum... Não me parece ter nada.
- Mas dói-me mesmo muito o peito, sr. doutor.
- Bom, vai fazer estes exames e depois vemos o que eles nos dizem.
Chegando a casa pergunta o marido:
- Então, mulher, o que te disse o doutor?
- Nada. Mandou-me fazer uns exames e voltar lá.
- Bom, e para o jantar, o que temos?
- Cabreito.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Se ao menos Platão soubesse

Balconista - Bom dia.
Cliente - Bom dia.
(4 segundos de silêncio depois...)
B - Diga, por favor, o que deseja?
C - Então, venho buscar o que o senhor sabe. O... o... creme.
B - O que eu sei? Não, não me lembro de falar com o senhor. Tem a certeza que foi comigo?
C - Tenho, pois. O senhor falou com a minha esposa. Por causa do creme dos coisos... dos... dos ossos.
B - Ah, sim. Já o tenho aqui. Falei com a sua esposa ontem. Não sabia que o senhor era o seu marido.
C - Mas, não sabe quem eu sou?
B - Não.
C - Ah, mas então o senhor não é daqui. É de cá?
B - Sou sim. Desde que nasci que moro aqui. Estive fora uns anos mas sempre morei aqui.
C - O senhor é de onde, então? Quem são os seus pais?
B - Eu sou de (...) e o meu pai era (...) . Conhece?
C - Sim, conheci. Eu sou (...). Moro ali (...), perto de (...), depois de (...). Está a ver?
B - Sim..., mais ou menos.
C - Ali (voz um pouco mais alta), quem vai para ..., depois da curva tem um caminho e é só subir.
B - (Mentindo) Ah, sim. Claro. Sei, sei. Pronto. Está aqui o creme? Precisa de mais alguma coisa?
C - Pois, é aí que eu moro. E sou o (diz nome com alcunha).
B - Ah, pronto então.
C - É isso. Eu sou esse. Já sabe quem eu sou?
B - (rindo). Agora sim. É esposo dessa senhora e mora em (...) e chama-se (...).

O resto da conversa foi, essencialmente, eu a tentar despachá-lo da loja para fora.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Clientelices

Já faz algum tempo que não os vejo. Falarei de um casal tão sui generis que, provavelmente, no século XIV fariam um tão grande furor como eu acho que devem fazer nos dias que correm:

Um carro aproxima-se lentamente. Tão lentamente numa rua apertada que obriga o restante trânsito a apadrinhar um passo de caracol estrangeiro (visto que existe um consenso em que no estrangeiro são melhores em tudo do que nós, é de elementar justiça que os caracóis também o sejam). De repente – pára. Pai e filho saem da viatura e uma gota de suor escorre-me pela espinha abaixo (sim, já sei).

Pai - Bô dia!
Balconista – Bom dia. Então, o que desejam?
Filho – Olhe, vimos buscar o chá de lavar por baixo.
B – De lavar por baixo?
F – Sim. O chá que o senhor doutor mandou à minha mãe para ela se lavar por baixo com ele.
B – Ahh… sim, já sei. Mais alguma coisa?
P – Era um creme que não me lembra o nome…
B – Diga-me, para que efeito é?
F – É o creme de botar no cú.
B - …
P – Sim, é isso. P`rás álmerróidias.
B – Ok. É este então. É tudo?
P – É, sim senhor.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

As Montras

Desde que exerço funções, como empregado de loja, vou reparando em certos tiques que a maioria das pessoas, provavelmente, não notam em si próprias. O mais engraçado e o mais comum prende-se com o reflexo da luz no vidro e que impede a visão para o interior do espaço. A primeira reacção que quase toda a gente tem (e eu próprio inúmeras vezes a tive) é imitar os burros. Passo a explicar: encostamos o nariz ao vidro da montra, usamos as mãos como palas e esbugalhamos os olhos. Depois fazemos caretas (umas engraçadas, outras muito engraçadas) porque continuamos a não ver nada ou, então, viu-se demais (o preço). E nunca nos lembramos que a porta é mesmo ao lado.

No fim, quem não acha piada nenhuma sou eu porque tenho que ir limpar o vidro. A não ser que seja Natal. Aí, é só mais um anjo escarrapachado.

Método Socrático invertido

Cliente: Bom dia.
Balconista: Olá, bom dia.
C: Olhe, sinto-me muito mal, muito mal mesmo. Ando com umas tonturas, acho que ando com uma fraqueza.
B: E foi a algum médico ver isso?
C: Não, não quero. São todos iguais.
B: Mas se os sintomas persistirem deve falar com um médico.
C: Não quero, prefiro ser tratada aqui.
B: Então sente falta de força no corpo? Ou a cabeça cansada?
C: As duas coisas. É mesmo isso. Ando muito mal da cabeça.
B: E sente enjôos e mau sabor na boca?
C: Ai, já que fala nisso, sim. Também tenho.
B: Hum, pode ser uma crise de fígado.
C: Pois, é o fígado. Pois é.
B: Não estou a dizer que seja, mas pelos sintomas tudo indica que sim.
C: É o fígado, é.
B: Mas falou com um médico?
C: Não, mas é o fígado.
B: Bom, nesse caso pode tomar este xarope antes das refeições.
C: E a fraqueza?
B: Essa fraqueza que sente pode ser provocada por uma crise de fígado.
C: E para a cabeça não tem nada?
B: Mas... e o fígado?
C: Queria para a cabeça.
B: Nesse caso, este aqui tem uma acção mais abrangente e ajuda a revitalizar a cabeça e a memória.
C: E não fará mal ao fígado?
B: Mas para o fígado tem este.
C: E não tem para os dois?
B: Não. Tem que tomar um para uma coisa e o outro para outra.
C: Ah, e posso tomar os dois ao mesmo tempo?
B: Poder pode, mas é preferível tomar um de cada vez. Assim o tratamento para cada sintoma é mais forte.
C: E o que me aconselha?
B: De que se queixa mais?
C: Da fraqueza.
B: Sim, mas na cabeça ou no corpo?
C: Sabe, é por igual.
B: Bom, (pausa) fazemos assim. Toma uma ampola deste pela manhã para a cabeça e no fim desta caixa toma o outro para o fígado. Pode ser assim?
C: Pode. Levo para o fígado, então?

Que gentileza...

Um sorriso nos lábios. Por mais podre que esteja a placa recebe sempre os clientes com um sorriso nos lábios. Têm sempre razão apesar de acharem que um balcão lhes dá um qualquer poder absoluto sobre os escravos sorridentes de coluna hirta por baixo da sombra da caixa registadora. Não percas tempo com explicações inúteis acerca da vantagem de mudar determinado produto por outro melhor e mais barato. Acabamos por não vender nenhum.

Pormenor de um detalhe: cliente satisfeito, caixa a preceito.